Evento é marcado pela integração da diversidade. Diferentes etnias, povos, estudantes, professores e cientistas se unem em torno de um objetivo em comum: a consolidação da agricultura sustentável no Brasil e na América Latina.

(Fotos: Irene Santana)

 

 

 

 

 

 

 

Brasília, 12 de setembro de 2017 – Uma das definições da agroecologia é a de uma ciência integradora, que não existe isoladamente, e alia conhecimentos de outras ciências a saberes populares e tradicionais. Pois é exatamente essa a essência do Congresso de Agroecologia 2017, que acontece de 12 a 15 de setembro no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. O evento reflete a integração da diversidade. Entre os quase cinco mil participantes, estão representantes de comunidades indígenas e tradicionais, quilombolas, geraizeiros, estudantes, cientistas, professores, entre muitos outros segmentos da sociedade brasileira e latino-americana. Mas, apesar das diferenças que os separam como etnias ou grupos, o objetivo é um só: compartilhar experiências e conhecimentos em prol de boas práticas capazes de tornar a agricultura mais justa e sustentável.

A primeira noite do evento – que abrange o VI Congresso Latino-Americano de Agroecologia, o X Congresso Brasileiro de Agroecologia e o V Seminário de Agroecologia do DF e Entorno – foi marcada pelo anúncio de um prêmio do BNDES, que vai proporcionar reconhecimento internacional aos sistemas agrícolas tradicionais brasileiros, além do lançamento de diversas publicações que se relacionam com o tema principal do evento. Confira:

Prêmio vai alavancar a agroecologia no Brasil

 Um dos destaques da noite, o Prêmio BNDES de Boas Práticas para Sistemas Agrícolas Tradicionais selou também um acordo de cooperação entre as instituições que participaram da sua elaboração: FAO, Embrapa e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O prêmio foi anunciado pelo chefe do Departamento de Orçamento da Instituição, Gabriel Visconti; o representante da FAO e ex-diretor da Embrapa, Gustavo Chianca, e pelo atual diretor-executivo de TT da Embrapa, Cléber Oliveira.

Durante a solenidade, o diretor da Embrapa ressaltou que o Congresso de Agroecologia 2017 é o local perfeito para o lançamento do prêmio, que vai contribuir para que as práticas de agricultura tradicional do Brasil concorram, pela primeira vez, a um importante reconhecimento internacional da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Cleber ressaltou o apoio que a FAO tem dado a iniciativas sustentáveis no Brasil, culminando com esta que vai conceder o título de “Sistema Agrícola Tradicional Globalmente Importante” (Globally Important Agricultural Heritage System, GIAHS) a Sistemas Agrícolas Tradicionais (SATs) brasileiros.  A Organização já concedeu o título de GIAHS a 36 sistemas agrícolas históricos de 17 países, mas o Brasil ainda não havia sido contemplado. Além desse reconhecimento, os agricultores receberão prêmios em dinheiro e capacitação da Embrapa.

O objetivo é estimular os agricultores do País a manterem seus sistemas de cultivo tradicionais, evitando a perda da diversidade genética. No mundo, os dados atuais são alarmantes e apontam que, nos últimos 100 anos, agricultores de todo o mundo perderam entre 90% e 95% de suas variedades e práticas agrícolas.

Livros refletem a diversidade do evento

Os 15 livros impressos e eletrônicos lançados durante a primeira noite do Congresso Brasileiro de Agroecologia refletem a diversidade do evento, com temas que vão do candomblé a direito ambiental. A Embrapa participou com três impressos e um eletrônico.

O primeiro “Coleção Direito Ambiental, volume 3, Bens e recursos ambientais e direito ambiental”, foi apresentado pelo diretor Cleber Oliveira. A obra, editada pelo pesquisador e ex-presidente da Embrapa, Silvio Crestana, e os professores Elisabete Castellano e Alexandre Rossi, da Unicep (Centro Universitário Central Paulista) e Unesp (Araraquara), respectivamente, apresenta fundamentos teóricos da área jurídica relacionados a questões ambientais, marcos jurídicos de políticas públicas nacionais e documentos internacionais.

A publicação reúne 120 autores de diversas instituições públias e privadas de pesquisa, ensino e extensão em torno da uma abordagem inovadora multi, inter e transdisciplinar para os problemas associados a questões ambientais, a partir do diálogo entre juristas e profissionais de diferentes formações acadêmicas.

O intuito do livro é motivar novas frentes de pesquisa em face das demandas ambientais emergentes, além de mostrar que a ciência e a inovação têm muito a oferecer para a reflexão das questões ambientais.

O segundo “Diálogo de saberes: relatos da Embrapa” é o segundo volume da coleção ”Povos e Comunidades Tradicionais”. Editado pelas pesquisadoras Terezinha Dias, Jane Edit e Consolación Udry, o livro reúne as experiências de pesquisa e desenvolvimento de 139 autores em situações de interação da Embrapa com povos e comunidades tradicionais em várias regiões brasileiras.

A obra é dividida em 43 capítulos, todos frutos de estudos locais, incluindo 15 povos indígenas e 28 comunidades tradicionais.

O livro reflete o esforço da Embrapa em voltar a sua agenda de pesquisa à internalização do diálogo de saberes a partir de uma visão multidisciplinar. Essa abordagem evidencia uma mudança de paradigma em relação ao modo de produção do conhecimento, atenuando a superioridade da ciência em relação aos saberes tradicionais.

O terceiro “Catálogo de Fava Conservada na Embrapa” foi apresentado pela chefe de P&D da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Marília Burle, que é uma das autoras junto com Clara Sales de Moraes, Terezinha Dias, Sylvana Costa, Rogério Vieira, Sérgio de Noronha. O livro apresenta informações detalhadas sobre esta espécie (Phaseolus lunatus L.), que está presente na alimentação de diversas etnias indígenas brasileiras, sendo importante fonte proteica em períodos de escassez de carne.

O Catálogo contém informações sobre 100 acessos da coleção ativa desta leguminosa de ampla distribuição no território nacional, também conhecida como feijão-fava. Mostra, entre outros pontos, diversos exemplos de doação de acessos de fava para comunidades indígenas que haviam perdido este material genético, evidenciando, na prática, a importância de conservar recursos genéticos em médio e longos prazos. Na publicação, o leitor observará que tão importante quanto conservar as variedades de fava é utilizá-las para a melhoria da qualidade de vida das populações, o aumento da renda dos agricultores e a manutenção de usos e costumes (gastronômicos, culturais) associados a esses materiais genéticos.

Além de facilitar o acesso de comunidades tradicionais a este material, a publicação reafirma um dos compromissos da Embrapa no primeiro Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PLANAPO), de regulamentar um procedimento para o acesso de agricultores organizados aos bancos de germoplasma de trabalhos nas diversas unidades da Empresa.

O livro eletrônico “Sistemas Agroflorestais: experiências e reflexões”, de João Carlos Canuto e autores, tem como objetivo dar visibilidade aos sistemas agroflorestais em assentamentos.

Os outros livros lançados foram:

– Agroecologia e Diálogo de Conhecimentos: olhares de povos e comunidades tradicionais, movimentos sociais e academia – Editora UFRPE, de Marcos Figueiredo e Maria Virgínia de A. Aguiar;

– A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica no Brasil – Editora Ipea, de Regina Helena Rosa Sambuichi (Ipea); Iracema Ferreira de Moura (Ministério da Saúde); Luciano Mansor de Mattos (Embrapa Cerrados); Mário Lúcio de Ávila (Universidade de Brasília – UnB); Paulo Asafe Campos Spínola (Ipea, UnB) e Ana Paula Moreira da Silva (Ipea);

– BioFAO na Agricultura: Recuperação da Defesa Natural das Plantas – Editora Bonecker, de Míria de Amorim e Marli Ranal;

– Candomblé – Teologia da Saúde – Editora Arché, de Francisco RivasNeto;

– Feminismo e agroecologia. Uma cartografia feminista e uma sistematização de experiências de ATER. Autora: Laeticia Jalil

– Feminismo na região Nordeste do Brasil. Autora: Laeticia Jalil

– Os habitantes da Montanha do Vento – Editora Sobrescria, de Júlia Selau Verdum;

– Escassez Hídrica e Restauração Ecológica no Pantanal – Recuperação das nascentes e fragmentos de mata ciliar do córrego no Assentamento Laranjeira I e mobilização para conservação dos recursos hídricos no Pantanal mato-grossense – Editora UNEMAT e a Águas Escassas no Pantanal (cartilha), de Solange Ikeda Castrillon, João Ivo Puhl e Danúbia Leão, da Universidade do Estado de Mato Grosso e Fernando de Moraes, da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (somente o livro);

– Trincheiras da Resistência Camponesa – Sob o Pacto de Poder do Agronegócio – Instituto Cultural Padre Josimo, de Frei Sérgio Antônio Görgen;

– Consumo Responsável em Ação: Tecendo relações solidárias entre o campo e a cidade – Instituto Kairós, de Juliana Rodrigues Gonçalves e Thais Silva Mascarenhas (livro eletrônico)

– Guia Prático sobre PANC: Plantas Alimentícias Não Convencionais – Instituto Kairós, de Guilherme Reis Ranieri.

Site oficial do Projeto Bem Diverso

Durante a solenidade, foi lançado também o site oficial do Projeto Bem Diverso (www.bemdiverso.org.br). O espaço virtual conta com informações sobre os seis Territórios da Cidadania onde o Projeto atua e as 12 espécies típicas das regiões com potencial de promoção, exploração e comercialização, além de notícias.

Implementado pelo PNUD e coordenado pela Embrapa, o Bem Diverso abrange três biomas e tem como principal objetivo promover o uso sustentável da biodiversidade, trabalhando com comunidades locais para estimular boas práticas na convivência com a diversidade.

Para Aldicir Scariot, pesquisador da Embrapa e coordenador do Projeto, o site é uma plataforma que conecta as informações geradas pelo Be Diverso com os agricultores e extrativistas no território e com os tomadores de decisão das três esperas de Governo. “O Bem Diverso está gerando uma série de dados e subsídios técnicos, que além de incrementar as boas práticas de manejo, servirá como insumo às políticas públicas”, afirma.

Ciência, poesia e edital encerram os lançamentos

 A noite de lançamentos contou ainda com o anúncio de um edital do Banco da Amazônia para submissão de artigos destinados a uma edição especial da Revista Agroecologia, em comemoração pelos 75 anos do banco.

Segundo a editora técnica da revista, Maria Lúcia Lopes, os artigos podem ser submetidos até o final de 2017. O objetivo é fortalecer a discussão sobre a agroecologia na Amazônia.

Para finalizar a noite com “chave de ouro”, coroando a diversidade cultural, que é, sem dúvida, a essência do Congresso de Agroecologia 2017, foi lançado o DVD “Ciência e Poesia”. A obra abrange 26 vídeos e 13 músicas, unindo a pedagogia da rima ao ensino da agroecologia.

O Congresso de Agroecologia 2017 inclui uma extensa e diversa programação. Para conferi-la na íntegra, acesse http://agroecologia2017.com/

Fernanda Diniz
Jornalista
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia
Fone: (61) 3448-4768
E-mail: fernanda.diniz@embrapa.br